
Só a imaginação transforma. Só a imaginação transtorna. É imaginação o livre exercício do espírito que servindo-se de um ou mais aspectos do «real» passa lenta ou rapidamente ao extremo limite deste para alcançar, pouco importa em que margens, o objecto real de um irreal conquistado no espírito. Acelerar este processo levando-o a um ponto em que se torne impossível falar de real e irreal (negação da negação anterior), produzir um objecto onde tudo, simultaneamente, tem as propriedades da verdade e do erro, da razão e da loucura, do que foi encontrado e do que foi perdido, é transformar a realidade depois de a haver transtornado.
Mário Cesariny, A Intervenção Surrealista

Latrina #1: O Covil.
Num prédio assombrado pelos fantasmas do salazarismo, vive uma sombra atormentada pelas luzes do modernismo. Pese embora o seu manifesto interesse por diversos ismos de vanguarda (dos quais se destacam, por exemplo, o canibalismo cerebral e o antropomorfismo vegetal), a sombra mantém-se fiel à prática de alguns ritos tidos nos tempos modernos como antiquados e/ou primitivos. De entre eles, sobressai um deveras peculiar, que passo a relatar.
Noite após noite, num quarto invulgarmente comum, a sombra desafia o seu reflexo no espelho. A competição do costume. O relógio aponta: uma (sombra) e um quarto (vazio). Com extrema devoção, a sombra agacha-se e rasga, nas já gastas peles do vidro rachado, uma ou outra fissura que lhe recorde qualquer coisa pura: sobras de um presente passado. Artigos definidos, pronomes indefinidos... tudo se conjuga harmoniosamente num verbo que se quer regular: matar... a solidão. A noite só é escura para os cegos – e, no reino dos cegos, quem tem olho me(n)diga que o tem (principalmente, se o olho for venenoso!). A noite é branca, reluzente, como um lençol divino que legitima a visão das almas apanhadas no clima da insónia. Na quietude da cacofonia citadina, a sombra isola-se, ouve a serpente segredar-lhe uma canção ao tímpano da memória e excita-se, qual predadora faminta, pronta a devorar uma nova presa de papel, desesperada. O reflexo no espelho grita, riscado como o disco que se ouve sofregamente. Como se de um combate pela sobrevivência se tratasse, a sombra descontrola-se e ataca impiedosamente o inimigo por detrás do espelho; depois, entre lamúrias, lamentos e inenarráveis tormentos, é ver a sombra recolher, desgostosa, os restos do seu reflexo desfeito. Há duelos que, por mais que se repitam, sabem sempre a passado, a arrependimento. O presente chega num embrulho amargo com um laço disfarçado de consolação: um copo de vinho barato, um cigarro (o sétimo) imperfeito e um perfume de incenso que cheira ora a ópio, ora a esperança. Três troféus, três sentenças que se consomem em três minutos. O quarto (di)minuto uma vez mais afogado no vazio. De súbito, o silêncio é rasgado pelo gemido de um telefone: «Então, lindo, encontramo-nos no sítio do costume para mais uma conversa mergulhada em metonímias?»
E é assim que, como se emergindo de um sono sepulcral, desperto – sobressaltado, suado, aterrorizado. Abro a janela e tomo um duche de chuva. Eu não sou eu: sou algo que restou de um sonho demasiado real. Cumprimento o espelho: a sombra derrotou o seu reflexo. O triunfo do costume. O relógio aponta: duas (sombras) e um quarto (de lua crescente). Ainda algo entorpecido, procuro o ponteiro da noite luminosa. Sinto-me (mais ou menos) vivo – mas isso não é essencial. Encontro, algures, um fantasma, que me pergunta: «Então, preparado para o recital de amanhã? Quem escreve sobre sombras, convém espelhar um ar radiante!» Respondo-lhe, entredentes: «Acho que sim.» Sorrio. Lagrimo, à medida que a nossa distância aumenta: «Queria tanto que conseguisses ouvir... a minha voz... muda.» Tropeço. Caio. Levanto-me. S@turnamente embriagado, dispo-me no quarto vazio de lua crescente, avanço até à janela – e voo. This could be my last regress. A realidade não é senão uma impressão, uma cópia de algo que talvez tenha sido original.

Ainda são alguns os degraus que me arrastam até ao Sanitário, mas os meus adjectivos, esses já lá estão dentro com certeza, quais vocábulos indomáveis, arrebatados, movidos por uma incompreensível urgência de adjectivar as noites que deveriam ser, por natureza, inqualificáveis.
Não obstante a presença das minhas queridas colher de chá e Eye of Horus – na galhofa, na maledicência e na ternura, companheiras insubstituíveis –, absinto-me sempre sozinho neste bar absurdo; sorumbático, submerso numa música inaudível.
Cada vez mais me convenço que este bar é o espaço ideal para quem gosta de expurgar a alma enquanto conspurca o corpo com uma purga qualquer. Aqui, quem quiser gritar, refilar, rosnar, uivar, morder co(r)pos, dançar, cuspir sangue, dançar, cambalear, dançar ou seduzir demónios com shots de euro e meio... é sempre livre de o fazer; ele até há quem esteja a um canto a conversar!!!
Contudo, nem só de javardice ou de rituais de acasalamento atípicos vive o Sanitário. É possível encontrar, no mesmo ambiente (em inglês, envirusment), outras almas, mais delicadas e românticas, que se refugiam a um canto, olhar fixo em tudo sem se deter em nada, uma mão no bolso, a outra consumida pelo cigarro e uma terceira, vinda sabe-se lá de onde, que segura a cerveja – enquanto aguardam por que chegue alguém (uma alma gémea?) que lhes diga que sim, que são muito infelizes e que isto é tudo uma merda. Não sei se estão a ver a espécie... é aquela que, de snooze em snooze, põe o despertador a lamuriar-se: "O, the pain... the pain of it all!" Normalmente acabam a noite num crescendo de embriaguez, batendo o pezinho ao som das músicas mais imbecis.
Neste espaço, a variedade encontra-se; as distâncias encurtam-se; e até o olhar mais lânguido e sensual adormece exausto num copo partido. Às seis da manhã, há ainda quem queira dançar um David Bowie já cansado, à espera de algo melhor. O pano cai ao som de um "It's such a perfect day" em que já ninguém acredita. Depois... depois varrem-nos da lama. Lá fora, nevoeiro.
Prossigo a minha caminhada, regresso à minha distância. Aqui só há o nada, a tépida lembrança de algo que quase resultou. Pudesse eu sentir-me verdadeiramente parte da natureza – um girassol, um raio de sol; um dilúvio, intemporal, universal... uma lágrima – e o meu sorriso seria espontâneo. Mas sou só mais uma réplica de vida fingida, um grão de areia longe do mar, pedaço de poema-sal... picado pela beleza na poeira.
Absinto-me sempre taciturno nesta distância absurda.
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Quem frequenta com assiduidade a Via Latrina saberá, pelo menos, uma de duas coisas: a primeira, é que é claramente pouco asseado; a segunda, é que ali se realizam, a meio da semana, não uma, mas duas «noites negras» em simultâneo. A mais concorrida, que decorre no salão principal, tem um sabor africano, e nela é possível ser-se pisado, abalrroado e apalpado de uma só vez, tal a quantidade de casais que teimam em dançar agarradinhos uns aos outros. A outra, relegada para um pequeno casulo no andar de cima, é onde os vampiros da cidade de Coimbra se reúnem em convénio, nas já celebérrimas dark nights. Como calcularão, é para lá que caminho.
À medida que subo os lamacentos e vomitados degraus da Via, vou aquecendo o meu bloquinho infernal para mais uma noite de paródia bem mórbida. Sou recebido com uma modinha de Samael. Nada mau; é sempre reconfortante saber que há mais serpentes in the house! Depois de cumprimentar a caríssima Eye of Horus – companheira destas e doutras deambulações –, coloco-me estrategicamente a um canto (para os interessados, «o método da aranha»); o canto é o refúgio ideal para quem não sabe esconder-se. Enquanto bebo uma imitação de cerveja e fumo um suave cigarro, passeio o olhar pela fauna vampiresca. Ele há de todos os géneros e para todos os gostos: gótic@s, metaleir@s, matrixian@s, provincian@os... um sem-número de criaturas que competem entre si para ver quem é a mais mórbida, a mais palidazinha, a mais imbecilzinha... Uma vista menos desarmada poderá ainda aperceber-se da tímida presença de um elemento estranho à comunidade; trata-se de um vizinho do andar de baixo: provavelmente perdido, quiçá em busca de «sangue novo» - certamente embriagado. Perante a comicidade de tal cenário, desato a rabiscar no bloquinho. «Que belo cabedal tem aquele!», diz alguém que por mim passa. «É falso», lanço eu. «Como é que sabes? Parece-me muito verdadeiro!» Depois de a despachar com um «nem tudo o que reluz é ouro...», apercebo-me da presença, no canto oposto ao meu, da moça que gosta muito de My Dying Bride, e, pela cumplicidade do olhar, adivinho que quer conversa. Aí vem ela:
« - Desculpa lá, há já algum tempo que estou para te perguntar uma coisa...»
« - Se te souber responder...»
« - Por que é que estás sempre aqui a um canto a escrever?»
« - Sei lá... en-canto nocturno?»
« - Vá lá, não sejas parvo! E escreves sempre nesses bloquinhos coloridos?»
« - Sim, sempre que posso. É uma das minhas caprichosas idiossincrasias.»
« - Idio... quê?»
« - Hum... idiotices.»
« - Então e escreves sobre o quê?»
« - Sobre (o) nada.»
« - Sobre nada?»
« - Queres melhor temática do que essa! É certo que há quem me acuse de ser demasiado egocêntrico, mas isso é gente que não sabe o que é ter o umbigo demasiado sujo...»
« - Não será antes cotão?»
« - Impossível... tenho o umbigo virado para fora, e não para dentro.»
« - E porquê essas meias dos Simpsons?»
« - Porque calço o 44 – e o meu sentido de humor começa logo nos pés!»
« - És engraçado!! Olha, está a passar Fields... Acho que vou abanar o esqueleto! Não vens?»
« - Não, estou pouco embriagado. Para além disso, já não como há alguns dias.»
« - Mas... não gostas de Fields?»
« - Claro que gosto!!! Mas prefiro estar a um canto. Talvez passem o "The Watchman"...»
« - Faz como quiseres. Boa sorte para a tua escrita! Tchau!»
« - Adeus... e obrigado pelo poema.»

Latrina #3: SugaDores.
A morte inspira-nos; a vida, transpira-nos. Somos seres sedentos de sangue, de suor, de lágrimas. Hospedamo-nos em qualquer corpo que apresente uma ferida ainda aberta. Parasitamos, seduzimos, esquartejamos... sugamos energias alheias, saciamos a nossa dor. É uma questão de sobrevivência. A insatisfação e a sede, o medo e o desespero – movem-nos, comovem-nos, bailam estóicos em nossas lâminas excitadas. Somos sugadores impiedosos, implacáveis - mas sensíveis. Tudo o que queremos é a glorificação do Amor. A beleza, para nós, não surge reflectida no espelho: ela é o espelho. O pulso com que manifestamos a dor de viver lembra tanto o do assassino como o do poeta: simultaneamente lúcido e insano, cego e meticuloso. Os delírios que dele emanam inundam mundos, devoram sonhos, alimentam almas... disciplinam a desordem da ordem universal. A pena com que tingimos a realidade tem a cor da esperança, e qualquer quadro disfórico por ela retocado, subitamente reluz, tal a profusão eufórica da nossa visão. Somos poetas irreconhecíveis por detrás da máscara de parasitas; destruímos com o único propósito de renascer purificados, e o nosso brado, por si só, torna-nos bardos compositores de vida. É por entre os versos que legitimamos a nossa existência enquanto organismos aut(d)ores. Uns chamam-lhe crime; outros, mais avisados, libertação. Se é por esta razão, se é por aquela – isso não é essencial: só a poesia nos pode oferecer a infinita possibilidade de redenção. E esta ilação não é de agora... remonta aos tempos bélicos da palavra, em que a poesia era uma arma, e significava poder. É urgente recuperar os SugaDores do passado – arqueiros românticos, infantaria clássica, sentinelas modernistas, artilharia surrealista... toda uma galeria bélica ávida de combates – e com eles aprender a lutar, de modo a chacinar esta imitação de vida que alimenta a nossa fome desmesurada de viver. Somos seres sedentos de sangue, suor e lágrimas. Somos a dinastia da criação implacável... e resistiremos até à última lâmina! A morte é uma preciosa fonte de inspiração, quando é vida aquilo que se quer escrever. E esta, sim, é a dor essencial.
A moment of Zen:
A ouvir Fields of The Nephilim, Revelations.