02 Setembro 2008

PERPETUA VIGILIA


O inquietante é a grande barriga azul, grávida e grave, que se embala vagarosa, que não vem nem vai nem ataca nem espreita.
O que vai nascer?, pergunta o homem à tranquilidade redonda. E a pouco e pouco vai-se embalando e adormecendo, metido uma vez mais no berço terrível.


Pablo Neruda, «O Mar»


Wolf,
my dramartist dreams,
2006.









Virgo de Los, no grave like home, 2007.


Canta e bate o mar, não está de acordo. Não o amarrem. Não o encerrem. Está ainda a nascer. Rebenta a água na pedra e abrem-se pela primeira vez os seus infinitos olhos. Mas já de novo se fecham, não para morrer, mas para continuar a nascer.

Pablo Neruda, «O Mar»




A ouvir Madredeus, O Espírito da Paz.

05 Fevereiro 2008

Mask a Ra!

Wolf, skelet on!, 2006.


Tacteei, titubeante, as teias da minha alma ateia e dissimulada. Novelei descrente a enevoada silhueta de mim. Neofitizei-me no desengano e na arte da vitimização, descubri-lhes uma certa estética, optimizei a sua exuberância. Visitei a dizimada, bafienta caveira; vaticinei-lhe os bacilos mais virulentos, viciei-a de naftalinas vãs: tornei-me um fulano barrocamente fodido. Onde quer que vá, na sacola seguem, comprimidos, os embriões da minha doença «real», proto-poemas em vias de parto, esboços com que abusar do tempo; todo um entulho literário que, depois de minuciosamente carregado, reciclado e passado para soulbytes, guardo à balda numa pen. Baldes de palavras tombam cadáveres animados pelos ficheiros de mim. Vivo um registo de papel, um rascunho de pureza encardida; as minhas metáforas sopram um hálito gelado; falo de uma linguagem estéril, empedernida. Atingiu-me o «síndrome da efemeridade nevrálgica». Quero a impiedade de Odin, cansei-me de benfeitorias à Balder, da raça de Rasputin fui, quiçá espectro de Rá serei... Raios me partam: trago a alma de penada! Dôo-me de tão moderno e vulgar que sou, travo a desgosto um trovar comum, sôo entrevado, ouço a beleza acorrentada ao intervalo de um soluço, qual trovão gemi do instante que anuncia a tempestade, li uma clareira na treva, a imensa página dos colhidos, veja-se, intermezzo, como cubro, intermission, a verdade, whatever, em minha alma, alas, fingida. Sou uma máscara de mim, a expressão trágica de um semblante solar, uma desilusão apolínea, leve impressão de fato pungente; abomino a imbecil ambição de igualdade, a noção de unidade, a pequenez, as fronhas tacanhas porque apanhadas de surpresa: impressiona-me o orgulho do predador na garganta da presa. Sorvo, nas feridas carcomidas, o confrangimento da previsibilidade, a suave carícia de uma soma antecipada, a subtracção da traição. Sou apenas mais uma cicatriz no corpo grotesco da multidão. Perdoa-me, tu que auscultas, paciente, esta verborreia nervosa, não era minha intenção enfastediar-te, sei quão penosa é a máscara da confidência. E a da incontinência, também, verbal, a minha, uma metonímia incontida. Dizes que a minha condição é insustentável, absurdamente sofrível, merecedora de auxílio psiquiátrico, não sei, não diria tanto, sinto-me lúcido o suficiente para descortinar o mais vago indício de comiseração alheia, no mínimo patética, sim, talvez, há noites em que ligo os máximos e luto com a minha doença, é a poesia, sabes, requer cuidados intensivos... Encosta-me a ti, talvez a frugalidade de um abraço me console. Dizes que é tear o que tece rugas na minha face, que atei o lamento à solidão e cavo abismos em mim, que tenho voz de solipsista, digo-te que não, que (ainda) não enlouqueci: laço singelo a minha vida no presente lúdico de um funeral.
Gosto do Carnaval, agrada-me a ideia de saber o povo em alvoroço, a sugestão de um motim, o frenesi reminiscentemente dionisíaco, a insanidade assumida: anjos, demónios, princesas, fadas, bruxas enfeitiçadas por seus conjuros alcoólicos, caça grossa, gente bruta, engates peculiares e inenarráveis (como um, que presenciei a noite passada, entre mula e mago, encontro que, adivinha-se, terá acabado em canzana macabra), e muita, muita imundície. Sei, neste arraial de circunstância, quão preciosa e relevante é a máscara que erradia a sombra dos meus dias: o lado maldito da esperança. My pocket-size drama. Ela diz que ama, clarividoente, o rosto de um enfermo sem chama. Alguém se despede de mim, a nossa distância reconhecida. Eu vi o Sol em um hospital ruído. Sim, anestesia, cheirava a chuva no deserto. Cegue-me, Rá, um poema lindo de morrer!


Transladado d'Os Funerários.


A mask to Zen:



A ouvir Bauhaus, Mask.

22 Outubro 2007

«Cianeto!» disse o ancião.


A morte, ou a sua alusão, torna os homens preciosos e patéticos. Estes comovem pela sua condição de fantasmas; cada acto que executam pode ser o último. Não há rosto que não possa ser desfeito como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do fortuito. Entre os Imortais, em compensação, cada acto, e cada pensamento, é o eco de outros que, no passado, o antecederam, sem princípio visível, ou o fiel presságio de outros que, no futuro, o repetirão até à vertigem.

Jorge Luís Borges, «O Imortal»




Era um senhor versado em semântica mui sombria, um ancião austero e nihiloquente. Esquecera-se, todavia, de um quase nada: a Palavra. A isto acresce o facto de não se recordar de alguma vez ter tido um nome. Há já alguns anos, pois, que não contemplava o seu rosto; os poucos centímetros de vidro que encontrara espelhados no tecto da sua caverna, quando, certa vez, se feriu no pé de uma palavra, optaram a dada altura por evadir-se, tal era a fealdade do fulano, que, diz quem o conheceu, possuía umas feições «demasiado eruditas» (as mesmas que, hoje em dia, se poderiam qualificar de «fantasmagóticas»). Muitas luas testemunhavam a sua lucidez, uma cegueira saudosa de nevoeiro, um lusco-fusco assombroso. Compunha, de modo quase mecânico, imensas poesias «para fora» – collages a cuspo, sonetos a murro, era só pedir –, trabalhos que faziam as delícias da juventude taciturna que dele se abeirava, a qual, mediante um pagamento que agora não vem ao caso denunciar, se deleitava com estruturas tão lugubremente tecidadas. Continuava, porém, sem se lembrar da palavra, um vocábulo venenoso como mãe, a única essência, pressentia, capaz de pôr termo ao sofrimento esotérico que o acossava. A sua tribo sucumbira por inteiro ao pesadelo da humanidade, pelo que era um homenzinho sorumbático este, um velhote que, noite após noite, abria vetustas janelas no seu covil e desatava a sangrar palavras obtusas, organigramas de células amorfas, lívidas... pedaços de divindades feridas. Era absurdo. Dividia o seu espaço com um gato – bichano ingrato e rabugento, em tudo semelhante ao gato preto a quem Boris Vian dedicou um blues –, o qual vivia aterrorizado com o facto de não reconhecer cheiro algum no seu dono. Evidentemente, intuiria o néscio tareco se tivesse lido O Perfume (ou visto o filme, que é igualmente bom), trata-se de uma questão de anima. Eis, portanto, em suma, as considerações que, espero, hão-de permitir ao leitor aperceber-se do incomensurável desgosto que consumia o espírito deste solitário ancião, um estado de desassossego tal que o levava não raras vezes a trocar uma noite de descanso por intermináveis sessões de cigarros e vinho barato, uma carnificina atroz de outra, enquanto youtubbava desconsolado os mais fascinantes vídeos animados (era um grande fã de Anime, arte que, dizia, fora criada para dar alento aos desalmados). Por vezes, se soía entrever, nas mais densas trevas do seu ser, a ignota palavra, assomava sôfrego à sua babel amada, servia-se de um dos quatro volumes de Borges e devorava, qual vampiro ensandecido, a enciclopédia pessoal do homem; comentava consigo mesmo que talvez ali tropeçasse na maldita; reagia infantilmente, se naquela constelação erudita avistava, ainda que de relance, a sua venenosa substanciazinha.
Certa noite, ao regressar funebrecido da habitual caminhada pelo jardim de pesadelos da humanidade, sentou-se na cova que os pés das suas palavras haviam baptizado de tecto e, invocada a santa paciência do outrora imaculado Arquimedes, pôs-se assim, sonambulesco, a regurgitar os verbos mais ridículos que conhecia, isto é, os que a senil idade ainda lhe permitia. Sentia-se hoje, contudo, estranhamente excitado: «Um espírito qualquer,» pensava, «que não consigo avaliar com clareza, apossou-se de mim com certeza...». Não obstante, esquecida a inusitada premonição, lá prosseguiu no seu afã de bestial encantador de lexemas. De súbito, como tivesse caído nas tenebrosas armadilhas do sono, despertou, a contragosto como sempre, para aquilo que nós, humanos, vulgarmente denominamos de «realidade». Desta vez, porém, notou que algo se transfigurara: a sua gruta, habitualmente imersa na penumbra, encontrava-se agora animada por um brilho avassalador, uma radiância de tal forma insuportável que o pobre velhinho, tomado de assalto, julgou estar com os pés para a cova (leia-se tecto). Olhou em volta e deteve-se, perplexo, sobre as sombras de palavras que se reproduziam a um canto generoso. «É hoje», exclamou. «Eureka!» gritava agora, à medida que devolvia o Arquimedes ao seu brumoso, íngreme berço. Aproximou-se da janela ansiosa, tal qual uma criança na manhã de natal afaga augusta a face da figura materna, e murmurou: «É hoje...». Ergueu o olhar à altura da magia e, vislumbrando as informes mas esclarecidas linhas do caderno estelar, leu assim escrito: Tu foste escolhido, irmão, para tomar parte da eterna criação. A tribo acolher-te-á, se assim o desejares. Basta que aceites a palavra que jaz periclitante sobre o teu travesseiro. Deves bebê-la de um só trago e, de seguida, entumecidos os lábios, saborear a prosódica revelação. Cego enfim de nevoeiro, o velho obedeceu e, aproximando-se do leito onde tanta lágrima (palavra!) soçobrara, esboçou um gesto que julgava incapaz de materializar senão através de metáforas: sorriu. «Cianeto!» disse o ancião, num derradeiro espasmo.
E foi assim que, desvelado o verso do céu, anunciado o termo de mais um deus desterrado, o poema de uma tribo imensa voltou a luzir. A Palavra é mortífera e ecoa fecunda nas páginas de um livro... inexorável.


Retirado d'O Livro das Mortes Originais.

13 Outubro 2007

POEMETAL (written in blood)

Wolf, metal heart, 2006.

20 Julho 2007

[a loan]


Why you feel so empty
And still have everything
It's fulfilment
I've got more companions
When I'm all alone
Flesh is fetching


Amorphis, "Alone"




[form a sign i tried to sum a rise the crime i meant to wit her o this pair would you here in words numb hear the lone i have become no doubt undone will still to come a crime o wine had i to sprung it drink to sum arise and spear to the soul less than nothing spair us at least a dime the still life for we are far from home sick yes we seek a light for a god damn true long time. dead line. who dare I wow to borrow me so a memory to trust old miss interpretated bliss and readjust the broken word the spoken deed time in a metaphor this sword o bleak crime come punish my loath some to the bones yet would you wither a loan when there a language is here to blame us o dear and chain saw us so near if we surrender and shine sign in cross the line a way of life the border line we write all for one debt like blood to the bond. need we dare for a name?]

25 Junho 2007

SUNSET US FREE

Wolf, summersend, 2007.


Let your verse soar free, mortal one; 'tis time you make believe
That one should live solemn as a falcon, on high above, stalking
Thus far from below. Question not whether your root has grown
Out of the plan divine: plant grand everlasting a seed on human
Kind; fiercely refuse to play the role of both hunted and hunter.
Be pedantic: choose the hunt itself! Prospero's magica ad vicem.
Let your verse roar impetuously, tempestuously; burning bright
As the sight of a tiger, your scar holds still a prosperous wound.
Feed and feast, a beast close at heart; also bursting to implode,
Lava flows beneath the soil. Keep it there, ever wake; dare seek
The stoic rose whose wondrous, sole purpose is lo to materialize
The dreams of those who conceive all life in its primal simplicity.

For as every sentient soul is born of the night captive, so are you
In this sonnet to perceive: that the sun leaves only to set us free.


A moment of Zen:

10 Junho 2007

Canção V


Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minh' alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si sòmente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assi co a alma minha se conforma,

está no pensamento como ideia:
o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.


Luís de Camões, Sonetos


Wolf, the songless muse, 2007.


Para a Telma, a minha canção impossível.


No cinto das cinco, sinto flagelado
o corpo frio da madrugada. A teu lado,
da tua respiração inundado, bocejo vago
e arrebato uma voz adormecida, sepulcral.
Ensimesmado, eis o meu abismo demasiado
real. É como se saído da cave dos sonhos,
onde o silêncio nunca perece e parece mais
exasperante, soísse trovar, por um instante,
trovejante o canto de um jogral encantado,
murmúrio de onda que, prudente, ousasse
esbater no escarpado rochedo do teu coração
marejado. Mas sou como o sal na ânsia do mar;
lacrimante, um dilúvio; cisma de sismo; cataclismo.
E assim, enquanto torna a onda, transtorna-se o jogral
na causa amada; transforma-se o amador na cousa amada.

E como gostaria de saber hábil bradar
o nosso amor tão docemente; ao peito
fazer sentir que sente, mais ar que dor,
o ardor que deveras sente. Mas falta-me
o engenho e a arte, a seiva e a semente.
Cantar-te como o Poeta que entreteceu,
a Oriente, divina a sombra de Dinamene...
Louvar-te como o Cego que testemunhou,
no Ocidente, o alvor do Quinto Império.
Ser o esperma da letra que queima e gela,
ao mesmo tempo, o útero da tua palavra;
a letra que e revela, além da semântica,
um outro significado do Amor: a Canção V.

A canção da matéria que busca, simples, a forma.

No eixo das seis, entrevejo desolado,
o rosto ferido da alvorada. A teu lado,
pelo teu hálito resgatado, volta o jogral
à abissal cave dos sonhos, recuperando,
murmúrio de onda ao ouvido, uma serena
bocejante canção de amor. Não a perfeita,
mas a impossível. A medida exacta
do meu incomensurável Amor,
do meu infatigável A-
fã de ti. :)


Happy Birthzen!

06 Junho 2007

POST MORTEM POST


Ergueu-se, ergueu-se!... com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguém...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.


Soares de Passos, «O Noivado do Sepulcro»


George Grosz, Glad to be Back, 1943.


Que este post seja um hino ao meu cadáver esquisito,
Que este post se prolongue
ad infinitum como a citação de um erudito,
Que este post dê o dito pelo não-dito (e tenho dito!),
Que este post pareça infantil como as patas de uma aranha vistas de perfil,
Que este post lute por um sonho em câmara ardente,
Que este post reconcilie os opostos que se traem,
Que este post homenageie o sujeito, sujo e triste, que recicla diariamente o seu lixo em sacos de pérolas,
Que este post me permita, metalicamente vociferando,
unleashar uma besta qualquer,
Que este post louve o amor que une o parasita ao hospedeiro,
Que este post dê de beber à carraça que se lambuza de poesia na minha sedenta carcaça,
Que este post seja mais uma farpa nas minhas já esfarrapadas entranhas,
Que este post se revele audacioso, tenebroso e, eventualmente, miraculoso,
Que este post assombre a sombra da sombra da minha sombra,
Que este post sublinhe o eclipse solar que assola a minha alma e a mantém assim, a negrito, obscura,
Que este post resulte tão
avantgard que me dê vontade de, no futuro, me poder vir a plagiar,
Que este post, em verdade, não deixa de ser um
ghost post,
Que este post reflicta numa sinopse para um filme intitulado
host alone in its shell,
Que este post me lembre que um bom mote – como por exemplo, um coma espiritual – vem sempre precedido de um maldito dote,
Que este post espelhe o meu desgosto ao descobrir que, afinal, uma epifania me dizia tanto como apanhar um pifo,
Que este post indique o epíteto pelo qual gostaria de ser lembrado:
a huge ghost bastard,
Que este post vele por todas as caravelas desveladas que desafiam a tempestade,
Que este post reconheça que é com enorme insatisfação que adoro falar de mim,
Que este post me ajude a encontrar aquilo que tanto me procura,
Que este post ajude a ajudar aquela que tanto me atura,
Que este post me proteja da escuridão que ofusca a luz da palavra vida,
Que este post pague a renda da criatura oculta que habita a minha voz,
Que este post seja uma súmula do meu nada,
Que este post seja a hecatombe do meu tudo,
Que este post se assemelhe a um final de ano sem entrudo,
Que este post afague a garra de seda que estrangula o meu coração,
Que este post termine tão podre como a varinha mágica de uma fada iraquiana,
Que este post conceba um grandioso e bem ossudo paradoxo,
Que este post assuma o queixume do queixoso no meu queixo voluntarioso,
Que este post seja o silvo que sibila agudo no ouvido do surdo,
Que este post me garanta que há mais vida para além do nó na garganta,
Que este post ecoe alguma luminescência nos escombros da minha bruma encefálica,
Que este post me livre da birra que acaba invariavelmente em cefaleia,
Que este post seja poderoso como o espirro de uma baleia,
Que este post exalte o meu contentamento por saber que, tal como qualquer ser vivo, também eu estou munido de uma fenomenástica morfologia plasmoblástica,
Que este post faça saber que Deus, para mim, só
ex machina e, de preferência, Capuccino,
Que este post glorifique a minha respiração
blastbeastiana,
Que este post me lembre de nunca mais voltar à tasca da
Ti Ana,
Que este post me avise de que, em casos demasiado graves, não convém revelar a verdade inquietante, aquela premonitória de sofrimento e desilusão,
Que este post seja singelo como a chama que diz sim ao gelo (leia-se fla[ma]gelo),
Que este post me ajude a explicar-te porque é que as palavras, quando bem disparadas, sabem a pólvora,
Que este post manifeste o meu apreço por tudo o que não tem preço (com excepção, claro, das palavras, que se pagam sempre caro),
Que este post seja a ponte que separa a criança do miserável,
Que este post me ajude a conceber a melhor forma de me devorar,
Que este post recupere as sempre sábias e oportunas palavras da Telma: «Para que é que escreves diários, se a tua vida é para esquecer? Devias mas era ligar mais ao teu blog...»,
Que este post, reparo agora, poderia muito bem ter sido escrito por um Groucho Marx, um Albert Camus e um qualquer gótico de trazer pelo túmulo, junto a um caixote do lixo parisiense, num dia em que se encontraram mais pachorrentos (com excepção, obviamente, do gótico, que passa os seus... er... «dias» a pachorrar),
Que este post deixe uma janela sempre aberta para o Sol sair,
Que este post ilumine a visão do cego que aprendeu a ler a vida no posto da sentinela,
Que este post seja o
locus paludosus where i release my cadaveric YOP!,
Que este post faça saber que me oponho totalmente à total aniquilação da totalidade da raça humana, pois, para além de estar demasiado entretido com o meu apocalíptico umbigo, estimo bem que a humanidade se foda (NOTA DO EDITOR: Pedimos ao prezado leitor que não tenha em consideração as palavras do The Poisonous Eye, pelo menos as últimas, visto que elas resultam de um desmedido acesso de loucura. Bem vê: acordamo-lo por momentos do coma profundo em que jaz – e dá nisto. Todavia, na nossa editora [Edições Poesiatípica], como incondicionais defensores da liberdade de expressão e acérrimos inimigos de toda e qualquer forma de censura que nos orgulhamos de ser, sentimo-nos no dever de respeitar e transcrever, integralmente, as convicções e as inquietações filantropas dos nossos autores, por mais absurdas que elas sejam – e são-no, a maior parte das vezes. Solicitamos, uma vez mais, a sua compreensão para o facto de o referido autor não saber medir as palavras, por mais humanamente minúsculas que elas sejam.),
Que este post aponte para a possibilidade de o autor deste texto não ser o autor deste texto,
Que este post lembre ao leitor mais crítico que o autor deste texto é meu adversário,
Que este post alerte o animado leitor para o desespero que grassa nas palavras deste escriba, uma vez que os meus mais inspirados neurónios – o Sinónimo e a Concórdia – estavam de folga hoje, encontrando-se de serviço o Antónimo e a Discórdia, que são, a bem dizer, uma autêntica desgraça,
Que este post seja uma analepse e uma prolepse da cena em que a divina Calipso colapsava depois de mamar mais um
Calippo à tromba estendida,
Que este post resolva o
lapsus linguae que levou a que, ao falar de um poema hermafrodita, alguém exclamasse: «era uma fodita!»,
Que este post seja a errata de uma volumosa adenda,
Que este post não é, nem pretende ser, um manifesto de auto-estima deplorável, posto que uma caveira quer-se sempre é orgulhosa e saudável,
Que este post dê abrigo ao cadáver que nã' valha uma mortalha,
Que este post seja um relicário tão sacrossanto quanto macabro,
Que este post se não compadeça do meu traumutismo crónico,
Que este post preste tributo a todo o dromomaníaco sedentário,
Que este post possua muita ironia, humor negro e, quiçá, algumas inverdades,
Que este post seja a «soma» com que me subtraio a mim mesmo,
Que este post aposte tudo sem um senão,
Que este post brinde a tudo neste serão (
a toast for the post’s sake!),
Que este post zele por todas as almas que fazem da sua passagem pela vida um excepcional momento
zen,
Que este post assegure o incauto e menos avisado leitor que estar vivo NÃO é, nem nunca foi, o contrário de estar morto (
mors sumus et mors vivimus...),
Que este post legitime a morte na farsa da vida,
Que este post seja um
scriptum trés magique...


A moment of Zen:



A ouvir Blut Aus Nord, MoRT.

28 Fevereiro 2007

Canções para a Telma

Wolf, make sleep to me, 2007.


I.

esta noite. há muito desperta
nos teus cabelos, uma palavra
recordava, por entre a bruma
prateada, como é tão intensa
aquela indizível luminescência

e toda tua, pequenino
a luz a prender a vista
cósmica, vaga, mística

porque a poesia incendeia
quintessencialmente
ama como o verso começa

que o teu sono é labirinto
meu solitário cosmonauta
que o teu sono é labirinto

aquela indizível luminescência
como é tão intensa, prateada
por entre a bruma, recordava
uma palavra, nos teus cabelos
há muito desperta. esta noite


II.

Apaga a luz,querido estupor, e vem esculpir
a tua musa: «Respiro tanto de ti...» Nesta noite
singular, verás, a tua insónia há-de esvanecer
ante a minha silente tempestade. Se me beijasses
agora, como se eu fosse aquela ancestral ideia,
a estrela-guia que pudesse alumiar a tua alma...

(A minha vigília conhece há muito os abismos dessa canção.)


São cinco da madrugada. Ou seis, quase alvorada. Acordo sobressaltada, nem sei porquê, e verifico que o meu amado fantasma se espectroliu. Os espectros são pródigos na arte da mentira: diz que é «encantamento nocturno». Encontro-o na sala, aninhado junto ao vórtice da nossa teia mais enleada, a olhar fixamente para um aracnídeo que avança ameaçador, sedento de Verbo. Chamo-lhe «the corpsearching spider». Lembro-me de dizer assim: «Olha, não sei se quero que voltes a dormir comigo! O meu apartamento cheira a desassossego que tresanda... para além disso, onde está a canção que me prometeste?» O seu rosto, noto aterrorizada, assemelha-se à caveira de uma criança de quatro ou cinco anos. Ou seis, quase humanizada. Quando ele replica, funebrecido: «Estou perdido, boneca de trapos! A objectiva da minha máquina de fotografar almas de mastodontes avariou-se; era pequenina, zoomiu-se; e agora, e os meus textos?» deixo-me levar, enternecida, por tão familiar e recorrente desilusão. Ocorre-me, então, recuperar uns lívidos versos, aqueles que, sei, são os da sua predilecção: «Dá-me a tua mão, meu irmão, essa amargurada, exausta garra da criação.» Mas porque é que tudo em ti há-de ser paz e harmonia - tudo menos o ritmo do teu coração?
O clima do meu mostrengo, descobri cert' infernoite, caracteriza-se por uma insípida e monocromática angústia, resultado da progressiva cegueira que atinge as almas que dedicam a sua
stamina à conservação de um icebergue mais ou menos real, um bloco de gelo que, costuma dizer-se, dilata e prolonga o sofrimento, sim, aquela cena que, diz, «preconiza a dor». Adiante. Às vezes diz-me que a sua melancolia advém de ter contemplado, por uma vez, a face augusta (ou lá o que é isso) do Belo, a indizível radiância de um leitmotif, a perene transfiguração do nada em menos nada. Imagine-se, então, as consequências de abominável bricadeira com o intraduzível, todo o medo que isto alimenta; imagine-se esta merda durante anos, meses... dias!
Sempre soube por que o sorriso do meu bebé era cadavérico.


Acende a luz, querido estupor, e vem lapidar
o teu poema: «Transpiro tanto de ti...» Nesta noite
peculiar, verás, as minhas águas hão-de revolver
os teus vestígios de humanidade. Se adormecesses
agora, rendendo ao tempo o teu torpor, palavra
de honra que o meu amor alumiaria a tua alma...

(A minha vigília re-vela há muito os abismos desta canção.)


III.

Estudar.
O lento desfalecer, dia a dia,
perscrutar, inventariar. Só assim se adia
o inevitável regresso à sábia, sombria noite. Entregue
cedo às espirituais aspirinas de poesia, tragadas e comprimidas
as vãs cefaleias do quotidiano, renascer célere no verso da madrugada.

Trabalhar.
A tua canção, dia a dia,
aperfeiçoar. Com a virtude do erro, as palavras
entretecer; entrever pura a imagem que sublime o tédio,
a apatia. Saber que meço alguma magia nos meus cento e oitenta
centímetros de insignificância. Conceber aquilo que julgo incognoscível.

Os efémeros dias, celebrar; devoto ao sonho, à liberdade e ao amor, fluir
como a torrente que entrega o rio ao mar – no teu eterno despertar, ruir.


IV.

25 Fevereiro 2007

Venus


v
e
n
u
s
i
we
rise
4 thee
oh light
over r sea
seen u shine
a morning star
brighter far and
high above a cross
to guide and wonder
so many children asleep
for we cry we blind come
lead us eye into your light
for we blind we cry come
align numb children who
long for that sidereal
call to wander and
fall o path divine
a radiant star
seen u smile
over r sea
oh light
4 thee
fade
we
v
e
n
u
s
i

15 Janeiro 2007

A Coma Song



i just called to say i'm dying

smell of hospital
so sorry mummy
yes i want out i
ain't no mummy

my anguished soul
moved neverland
further & further
good old peter pan

smell of hospital
farewell my friends
sick a nice dream
listen to
the bends

light is my goal
eternal dawnland
closer & closer
did the best i can

delirium, delirious
my heart goes boom
paid out my sanity
got me some doom

yeah gimme a call
let's have a stout
love u too honey
no need to shout

the poisonous i
@ the hospital
his dotty coma
, no comments

will you ever sing
my silent poetry
our days r mute
soon a fatal e. t.


Mistaken from The Serpent Songs.


12 Janeiro 2007

In Loving Memory

Wolf, she-rose, 2007.


quanto tempo mais errarei neste quarto (réplica)
de vida onde me perdi da terra em ti a recolher
o pó que jaz na sombra do espelho cego sem
reflexo sem retorno segue o sopro de ego
e ofusca quem no sono diz não mais ser
surpreendido pela ampulheta de peles
vazias de sangue de cortes ilustres
em nobres veias na realidade o
que me sotura rasga-se cose
de novo o que me satura
são as feridas ainda
por abrir é a
memória
soturna de que não estou cá porque estou aqui do lado de lá onde nunca vim a encontrar as palavras certas na lâmina as setas indicam a profundidade dos abismos cinza de amanhã o sonho que vivemos cada_falso true como est la vie
hã rose
soltas as metáforas que me
invadem virulentas como se
parasitas habitassem as peles
violentas do teu coração e se
no final o veneno do poeta da
ampulheta é o tempo perdido
a rimar a dor e a melancolia
a pintar a noite a cor do dia
feliz se na garra sentir a onda
que ri do mar espuma o corpo
e lava o pânico de novo fogo
o torpor que nos levou o amor
o horror que sabemos há muito
não estar aqui entre nós pois não
adormeceu em ti ou morreu em mim
morreu naquele hospital onde assisti
a um coma profundo feito de sono e pó
o pó que jaz na sombra do espelho cego
a cegueira sopro de ego que atacaremos
nos nós cegos dos abismos rosa de amanhã
as feridas já abertas pelo sonho que vivemos
cada_veres na realidade o que me satura é a morte

20 Dezembro 2006

O Culto


Os deuses desterrados,
Os irmãos de Saturno,
Às vezes, no crepúsculo
Vêm espreitar a vida.


Ricardo Reis, Odes


Goya, The Incantation, 1797-98.


Saturno

(uma abordagem na onda dos Orangotangos sem Açucar)


Saturno foi um senhor que viveu há muito, muito tempo, num sítio tão longínquo que, para falar a verdade, consta que nunca se lhe conseguiu pôr a vista em cima. Pese embora esta aparente incapacidade de se manifestar in praesentia, o que é facto é que a fantasmagórica criatura andava por aí, e diz que era de tal modo prendada que a simples evocação do seu nome era capaz de tornar fértil mesmo a terra mais estéril. Mas para que se compreenda melhor tão generosa intervenção divina, talvez seja útil recuarmos um pouco na história.
Deus da mitologia romana (o seu correspondente, na mitologia clássica, é Cronos), Saturno surge caracterizado, de acordo com os mais recentes, corrigidos e actualizados estudos de Ludwig Waddizkaklav Sarrabulha de Yop (in Saturn: a lonely and obsessive-compulsive farmer [1999]), como «um gajo porreiro, sempre na boa, dotado de extrema sensibilidade (...) basicamente, passava os dias de papo para o ar a beber néctar e a comer ambrósia». Acérrimo defensor da cultura do ócio, Saturno era, igualmente, um grande amante da poesia, não sendo por isso raras as vezes que o ouvíamos dizer assim: «Ó camarada Apolo, importas-te que toque um bocadinho na tua lira? Sim?! Ok, então toca-ma tu, que é para ver se eu consigo embriagar esta musa e pô-la a declamar aquela ode ao sexo selvagem.». Vejam lá, portanto, a superioridade desta gente: não só já apanhavam monumentais borracheiras, como dominavam, e bem, os vários géneros poéticos! Certo dia, porém, Saturno travou uma violenta discussão com o seu filho, Júpiter. Desconhecidos os motivos que levaram à zanga – uma vez que Saturno era tido como um tipo calmo, algo pachorrento, inclusive um pouco dado à soturnidade e à melancolia –, o que se sabe é que seriam graves, pois enfureceram de tal modo Júpiter que este correu de imediato com o pai do Olimpo, aglomerado de barracas onde viviam os deuses. Não sem que antes se assistisse a uma cena de pancadaria, a qual, segundo se diz (não se sabe quem, claro, que isto de denunciar a vida privada dos deuses não se faz impunemente), terminou à bofetada e ao estalo, com os outros deuses todos a tentar separá-los: «Epá, ó Saturno... pronto, deixa-o lá... Francamente, Júpiter, o teu próprio pai... Olhem-me só para este chavascal!». Enfim, a divina algazarra do costume. Tendo chegado à Terra numa posição algo confrangedora, o desterrado Saturno, ao avistar a merda de sítio onde caíra – seco, árido e agreste –, cedo se apercebeu de que, já que estava condenado a passar aqui o resto da sua miserável existência, o melhor era adaptar o espaço ao conforto a que se habituara. E foi assim que, depois de espalhada a sua divina semente por todo o solo terrestre, fez brotar a rosa primordial, de onde emergiram as primeiras árvores maternas – fonte de toda e qualquer forma de vida.
Explicada que está a origem de Saturno (o «senhor que dá vida»), a sua expulsão do Olimpo e consequente chegada à Terra, resta agora falar um pouco dos cultos que a ele eram erigidos. Apesar de ser um deus próprio da mitologia latina, o Dominus Saturnus (expressão pela qual era invocado pelos romanos) foi também objecto de apropriação por outros povos e culturas. Alvo de uma devoção que não conheceu fronteiras (e leia-se fronteiras, aqui, no seu sentido literal, uma vez que elas não existiam mesmo, ou pelo menos assumiam uma forma diferente da que conhecemos hoje), Saturno terá atingido o apogeu da sua adoração em África. O culto de Saturno, expressão usada para designar o ritual em que se lhe prestava tributo, adquiriu, de facto, dimensões excepcionais junto do povo africano, para o qual o deus representava o poder fertilizador da terra e, do mesmo modo, o sol, bem como a lua. Todavia, não se pense que Saturno era uma Madre Teresa lá do sítio, do género de ser dado à caridade e tal... Não, senhora! A terra é a terra, e, apesar de na altura ainda não se discutirem assuntos como o direito de propriedade nem se terem escrito livros como O Capital, a manutenção da sua fertilidade exigia, naturalmente, algo em troca. Se se tiver em consideração que Saturno era um secreto admirador dos seres humanos (de tal modo fã, vejam lá, que chegava ao ponto de os devorar, o big bully), não é de estranhar que volta e meia se realizasse um ou outro sacrificiozito em sua honra. A dada altura, porém, o deus fartou-se da carne humana (acontece, mesmo aos melhores) e passou a interessar-se mais por libações e por sacrifícios de touros e de carneiros (mas só estes animais, já que o menino, diz-se, tinha queda para o requinte e um gosto que vai lá vai, nem um javalizito nem nada...). Em suma, o que dizer de um gajo que surge ilustrado em muitos livros com uma serpente na mão? Um bad ass, obviamente!
Para finalizar esta breve resenha sobre o Ti Saturno, só falta mesmo referir as festividades que se mantinham em seu louvor (o que talvez fosse dispensável, uma vez que essas, como metem bacanais à mistura, a malta já as deve conhecer). As Saturnais eram festas populares, celebradas anualmente em pleno solstício de Inverno, que, aparentemente, pretendiam recuperar o espírito de uma época em que todos os seres humanos se davam bem, eram felizes e viviam em paz. A Idade do Ouro? Bullshit! Basicamente o que o pessoal queria era não trabalhar, realizar majestosos banquetes e andar por aí, de festa em festa, até às tantas. Os senhores davam «folga» aos escravos (que é como quem diz, davam descanso ao chicote) e vagueavam pelas ruas, como gatos no cio, atrás de qualquer putéfia que os seduzisse com o seu terceiro olho; os escravos, como que aproveitando os breves momentos em que podiam comportar-se como cidadãos, apanhavam bebedeiras de caixão à cova; o próprio Saturno, quando perdido em deambulações vítreas por este terreno antro de libertinagem e depravação, murmurava, entredentes: «Foda-se, o que eu fui fazer! Quis eu alimentar esta gente, de maneira a que eles sobrevivessem e assim ruidassem a minha solidão, e o que recebo em troca... vomitado barato por tudo o que é árvore, as festividades que supostamente eram em minha honra a desembocar nas orgias mais escabrosas... enfim, um completo desdém por tudo o que a mim diz respeito! Ah, aquele maldito Júpiter! Se algum dia voltar a pôr-lhe as patas em cima, nem sei o que lhe faço...».
E assim chega ao fim a história do Sr. Saturno. Espero que tenham gostado. Como é que ele acabou? Sei lá! Mas, se pensarmos na angústia que o fulano devia sentir por ter que partilhar a Terra com os suínos humanos, é bem possível que tenha dado um tiro nos cornos. Abandonando o manto diáfano da fantasia: ficámos a saber, pelo menos, de onde vem a palavra «Saturday». :)


A ouvir The Cult, Love.


Saturnianos

Vivem fantasmagóticos românticos a alma abísmica de mim
O soturno Werther, o devasso Byron e o delirante Hölderlin;
Toda uma plêiade de SugaDores saída da Sturm und Drang,
Impetuous and Wild(e) as beasts, they feast on my sangue…


anónimo (c.1999)


William Blake, The Ancient of Days, 1794.


Para a Eye of Horus.


Os filhos de Saturno erram distantes porque escolheram
Ler a vida como se ela fosse um poema. Obscuros, sonham
Puros os crepúsculos, um claro-escuro na cegueira. Da sua alma,
Pulsa uma garra sempre aberta e afiada; ímpia, mas justa, ataca
As feridas emergentes nas palavras: sangra quem souber respirar
A eternidade na pele da poeira, a felicidade no rasto da sombra.
O seu rosto, opaco, não reconhece o espelho; ele é
E reflecte... at at at at... Oculto... culto culto culto culto...

Nós somos os filhos de Saturno! Desterrados e desprezados,
Aprendemos a viver, afoitos, como serpentes na densa bruma.
Antecipámos, silentes, a intenção do predador; amordaçámos,
Prudentes, a pretensão do usurpador; orgulhosos e solares,
Erguemos triunfantes um novo reino para os destroçados
Sopros que ecoam na penumbra a glória da Luz imemorial.

O nosso turno é o nocturno; o trono, o de Saturno. Eternos
Versos sonâmbulos, deambulamos cegos no papel do mundo,
A cor dando a vida nas ígneas palavras e na sombra, a poeira
Das nossas túnicas de pranto. Assombrosa é a ponte, o reflexo
Do encontro: opaco deserto de espelhos que na alma revela,
Por momentos, a imagem vidrada do nada que é uma vida,
A miragem nítida do tudo para que somos projectados.

Os filhos de Saturno morrerão sábios porque souberam
Escrever a vida como se de um poema se tratasse. Tolhidos,
Sonham olhos as garras, raios soturnos, orgulhosos e lunares.
E porque o Tempo a humanidade traz ao pescoço a estrangular,
O nosso pulsar lembra o dos deuses, um ledo sentido de sentir,
Nas palavras, breves e ofegantes,
As intermitências da passagem.


A ouvir the gathering, if_then_else.


A moment of Zen:



À FORMOSURA DE UMA DAMA MORTA

Quero dormir contigo, querida Armânia,
Numa sepultura! Poder fazer belo o Amor
Sem ter de ver o teu corpo... (Que horror!)
Sentir a tua suave fragrância de Armani...

Possuir-te aqui, na fria lápide, ó formosura!
Ou ali, no meigo recanto do lavral jazigo...
Se a tua irmã te lembras de trazer contigo,
Ai de mim!, fico louco, ninguém me atura!

As minhas mãos fazem-se garras ao atacar
Roliças coxas como as tuas, flor de jasmim!
Molho os lábios, selo o convite para entrar...

Entrei. E isto dura... e dura... Oh, que festim!
Putanheiro? Sim! Adoro o reboliço do amar...
Ouve, Armânia: «Soa mui bem penetr'arte!».

18 Dezembro 2006

poor vous



Eu sou um lençol de queijo derretido e tu, uma sedutora colcha de fiambre.
Enquanto aguardamos, pacientes, por que ele nos aqueça a cama - de centeio, de milho ou de trigo... tanto faz - ou o divã - apertado croissant -, cortejamo-nos tímida e inocentemente, trocamos carícias com o olhar... flirtamos.
Sou, como seria de esperar, o primeiro a ser colocado na cama. Queijismos e fiambrismos à parte, tal escolha prende-se com um critério que é, julgo eu, do conhecimento geral: o queijo funde muito melhor com o fiambre, se estiver por baixo.
Aí estou eu, pois, esparramado no suave colchão de massa, esperando, ansioso, a tua chegada. Merece registo a cordialidade com que ele se te dirige, em tudo dissemelhante da rudeza destes carniceiros, vulgares empregados de pastelaria, que, com seus dedos rústicos e deselegantes, amassam a tua pele delicada, deixando-te ressequida e, logo, desfiambrada. Mas tamanha bestialidade não se verifica no nosso jovem: vê-se que é uma criatura dotada de inteligência e sensibilidade. Basta observar como, com um gesto meigo, mas ao mesmo tempo robusto, ele nos entrelaça. Tu contorces-te, como se procurando a melhor forma de te dares; eu... eu ajeito-me como posso, possuído que estou pelo espírito do desejo... se me derreto, tu fervilhas... se suo, tu transpiras... os nossos odores libertam-se... fundem-se... isto é júbilo demoníaco até mais não poder... a própria cama já não sabe se é centeio se é milho... é uma loucura...!
Entretanto, eis que intervém o nosso jovem dos dedos subtis, embevecido, provavelmente estupefacto perante a nossa performance. Repreende-nos e, de seguida, cobre-nos com um fino tecido de uma massa qualquer. «Ora! Era mesmo isto que não precisávamos, meu caro! Agora é que fizeste a bonita!» Ele afaga-te um dos seios, o humedecido; eu assanho-me, pois não acho piada nenhuma aos seus intentos; ergue-nos à altura da sua boca e, de súbito, como se descobrindo por fim aquilo que interrompera, hesita. Fica assim por uns instantes, perplexo, a olhar para nós. E é aí que eu, encolerizado com este comportamento tão en vogue do «não come nem deixa comer», explodo:
- Ouve lá, ó meu rapaz! Se não te importavas, era favor dar-nos entrada nessa tua boquinha, que isto estamos quase a vir-nos, ok? Raios partam esta nova geração de voyeurs, sempre pronta a saborear com os olhos mas pouco dada a engolir!
Ele obedece e, num ápice, leva-nos à boca.
Abraçados, somos como dois amantes que erram solitários num céu macio e salivado; deleitamo-nos na pele halitosa das estrelas; os astros jorram querubins ao nosso redor; cerramos os olhos e, sentindo-nos prestes a rebentar de prazer, sabemos que um irá gemer, que o outro irá tremer... que ambos dificilmente conseguiremos adormecer. Mas adormecemos.
Uma vez despertos - e antes de nos precipitarmos em direcção ao canal esofágico -, lembro-me ainda de algo ousado. Aproximo-me dos dentes do rapaz, toco à campainha dos alvéolos superiores e, à medida que ele retira da boca o pedaço de queijo que de mim sobrou, lanço-lhe esta à cara (de um modo algo descarado e desavergonhado, reconheço, mas sou assim):
- Olha lá, ó meu rapaz! Já se bebia um galãozito, não achas? É que, sabes, a gente ainda tem uma longa viagem pela frente...
E o rapaz sorri.

10 Dezembro 2006

(to a muse :) My Sole

Mike Bohatch, Earthen Sublimity, 1999.


Roses are black and violets are too
Tender and violent at the sight of you

There's so much sleep in those lips of yours

Verses are blank and words are mute
Mystical be the voice of your silent root

There's so much sleep in those lips of yours

Devotional songs once a dance to amuse
My soul breathes poison & sorrow a muse

There's so much sleep in those lips of yours




When I think more than I want to think
I do things I never should do
I drink much more than I ought to drink
Because it brings me back you


Jeff Buckley, "Lilac Wine"

30 Novembro 2006

WE LOST HIM!


tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano


Mário Cesariny, «Autografia»


Wolf, at the hospital, 2006.


NO BLOCO OPERATÓRIO

Eu sei que me arrependerei
se disser que alguma vez te amei
(e se sentir nos lábios secos o beijo
da salvação por que nunca esperei)

Eu sei que me arrependerei
se souber a tristeza sempre inacabada

Eu sei que me arrependerei
se não decorar todas as sinestesias
com que aprendi a anestesiar a alma

Eu sei que me arrependerei
se continuar a ler os poetas do nervosimo
(o Leiria, o Lisboa: os meus abjectos predilectos)
sopra zoonzo como o Oom ou cansado como o Nicolau
chegar atrasado ao embarque na derradeira nau
e dilacerar as asas perante a túnica certeza:

que nunca soube chorar,
que me esqueci daquele segredo...
(Ah... voar!)
que sinto inveja do mar!

Eu sei que me arrependerei
do futuro presente que nunca te dei

Mas eu sei que jamais me arrependerei
se fizer do tédio um passatempo
e da vida um poema sobre nada em tudo
um solitário prazer de conspurcar
as palavras com a voz gasta e viciada
pelo mais viscoso sangue dos meus sonhos.




Nas margens do Jardim da Sereia eu mijei e chorei.
Ora, eu sou uma carmelita! Arrebita! Arrebita! Arrebita! É verdade ou é mentira? É mentira, sim senhora! Olha, vamos interpelar aquele político ali ao canto. E então, bebe um tintinho ou rum, senhor procurador? Whisky, por favor. Ah, é fino o doutor! Sou sim, senhor! E olhe que o meu amigo, o Presidente da Junta de Freguesia de Portugal, ainda é pior... Ah, mas esse conhecêmo-lo de cor! Ui! que ele vem já sem cor! Perigo e medo! Fechem-me lá a porta desse frigorífico e sirvam as famosas bebidas do inferno, que nós não somos nenhuns iogurtes, caramba! Isto é preciso é distribuir bofetadas a torto e a direito! Arre! Irra! Valha-nos Nosso Senhor Salazar e mais a pata peluda do Ministro de Belzebu! Ó chefe, traga-me aí umas pantufas, que eu quero é dançar um bailinho da Madeira! Se eu tenho barriga de cervejeira? Pois está visto que sim! Quais impostos! Eu cá não pago disso... sou um anarca-arranca miolos - mas as democracias convêm-me! De vez em quando também cago, mas nunca puxo o autoclismo. Tenho a língua afiada, muito britânica, trés chique, muito gira... mas demasiado americana!... Explique-se, senhor comendador! Então é assim: chegas ali à Internacional Socialista do Texas e grunhes um coice do género "Hiiihaa"! É uma loucura! Aquilo é que é ver os intelectuais sem dentes! E agradecem, ainda por cima! Porquê? Porque, de entre a água e o fogo, escolhem sempre o ar, os desgraçados; depois não admira que se lhes falte o cálcio! Claro está, deixo-os a rir que nem umas hienas em chamas! Ah! o que eu gostava mesmo era de morrer num oceano... mas para estacionar o Mercedes cobram-me uma batelada de papel - e eu já só tenho quarenta dias. Orelhas on fire! NãNãNãNãNãNãNã! Epá! Topa-me o cabelo daquela gaja... É lindo! É muito floribellesco! Orelhas on fire! NãNãNãNãNãNãNã! Bem, tive uma semana de merda, o espelho em cacos, um gajo ia-me atropelando quase a 20 à hora - e eu voava sem pés. Foi a coisa mais excitante da minha vida... a seguir à Coca-Cola e à Britney Spears, claro!!! No Piano Negro, então, houve uma gaja que bateu com o retrovisor num mendigo e deixou que as orelhas do carro ouvissem os segredos de alcova da mãe da mulher do Senhor Primeiro-Ministro! O mestre da retórica desviou-se e disse: «Ora não querem lá ver... o pirulito sem bola! E eu que já me vendi nessa rua um montão de vezes!!! Bem, o que vale é que Deus, Nosso Senhor, não é de vinganças, mas castiga sempre pela mansa...». Ha! Ha! Ha! Orelhas on fire! NãNãNãNãNãNãNã! Olha, que giro, a torre caiu! Vamos comemorar! Sai um licor de pastel para a mesa da Babel! Babel? Eu sou a Belém! Não interessa, vai-se parar à mesma ao tourel! Primeiro, o touro salta, salta, salta; depois dança, dança, dança... E depois, ficam os bois a encher a pança? Claro que não, seu imbecil! Esses estão a dormir nas palhas do Cabaret Sagrado! Chama-se a isso «bonança». Haaa! Eh lá, isso é que foi um valente suspiro! O que é que queres, estou farto de trabalhar... Mas, pensando bem, talvez venha a sentir falta disso. De trabalhar? Não, idiota, de Joy Division! Boa! Vamos brindar! Orelhas on fire! NãNãNãNãNãNãNã! Ainda me lembro do concerto deles na noite de fim de ano... aquilo é que foi curtir... gargalhadas bem grelhadas com queijo... e a outra a vomitar na cantina da fábrica! Ha! Ha! Ha! She didn't walk in line! Bela noite essa, a da Nazaré! Fui muito feliz naquele bidé... Qual Malato, qual quê, caralho! Esse gajo é gordo, não pode ser feliz! Toma lá, um momento paparazzi! E tu, ó Nódoa Gótica, onde é que vais passar o maldito? Ok, este gajo só sabe escrever! Mas vê lá se apareces na minha festa de anos! Começa aí por volta das sete da matina... Tuxedomoon, Siouxsie, Sisters, 69 Eyes... foda-se, aparece! Sim, há-de haver por lá vinho! E, mesmo que não haja, para ti arranja-se sempre qualquer coisinha... Pausa. Pipocas, sardinha, cerveja e cigarros! Desculpa lá, já estás a inventar... Ninguém disse isso! Não? Não. Ok, passa-me aí o Katchup... apetece-me escrever palhaçadas. Isto agora vai ser conforme o meu acordar, de acordo? Ah, isso é muito giro! Giro ou interessante, ó Gato? Olha, giro, giro, era eu ter aqui a minha roupa gótica! Isso é que havia de ser! Lentes de contacto esmeralda e tudo! Fixe! Olha, empresta-mas lá... que eu hoje sinto-me algo bizarro. Bizarro?! Foda-se, tu tás é coma ganda cadela! Esta??!! É a minha namorada, ó cabrão! Foda-se, isso é muito pouco gótico! Gótico?... tu tens é um beto aprisionado dentro de ti!... Liberta o cócó que há em ti! Ok! Orelhas on fire! NãNãNãNãNãNãNã! Bem, se tudo correr bem, tudo há-de acabar em... Ainda te lembras de como tudo começou? Claro, basta começar sempre pelo fim. Amor! Poesia! Liberdade! O tasco deve estar quase a fechar... E se fôssemos para a rua parir o mais leve que o ar...?
Nas margens do Jardim da Sereia eu mijei e chorei... sobre um canto vomitaminado.

15 Novembro 2006

S E M E N T E O P O E M A


Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afectado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? Boa razão é também esta. O estilo há-de ser muito fácil e muito natural. Por isso Cristo comparou o pregar ao semear: Exiit, qui seminat, seminare. Compara Cristo o pregar ao semear, porque o semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte. Nas outras artes tudo é arte: na música tudo se faz por compasso, na arquitectura tudo se faz por regra, na aritmética tudo se faz por conta, na geometria tudo se faz por medida. O semear não é assim. É uma arte sem arte: caia onde cair.

Padre António Vieira, Sermão da Sexagésima




[no campo]

o vampiro ergue-se e espreguiça
as ávidas presas de soma
e assoma ágil mas prudente
por entre a folhagem densa e silente
à carne no ci(m)o de uma árvore

sua vítima sua

t r a n s p i r a por todos os p o r o s
a seiva seca da ramagem congelada

pela geada

desliza agarrado ao tronco rugoso
e sente a sede cavar-lhe um sulco

nos lábios

o desejo fa-lo atacar o caule cauteloso
e assim que sabe o seu gineceu agitado
o pulso da criação penetra in_colum_e
o útero em sangue segrega um segredo

antigo
primordial
enredo
(o)
culto
ritual

da semente a
(o)
nascer


[na cidade]

O vampiro nasceu. Rastejante.
Encantado com'a sinuosa dança cibernética, este ser anseia - sua saliva seca - a actualização da semente em forma de chip. Presa p'la geada na (h)era tecnológica da RAMagem estilhaçada pela novidade sintética (mas tão estética!), a árvore desfi(l)a raízes em todas as janelas do WINDOWS. Caído intheirnet, o sedentário vampiro - de nickname payassu 2000 - prega a seiva original na aurora da flora virulenta; promove chats onde se discute a melhor indumentária para exibir a natureza morta, congelada e despojada de atalhos, no altar infame de um plasmático monitor. Na demanda do absolutismo informático, este ser carrega a semente digital em direcção ao virtuoso cemitério da realidade virtual...
O vampiro rasteja. Obsoleto.


[no poema]

O vampiro adormece
no seio da Palavra
semente. O Poema
só é eterno se celebrar
o regresso ao nascimento
das coisas simples.


Semen est Verbum Dei

03 Novembro 2006

November (ad nebulam)



Por entre a neblina de Novembro
e a nefelibática relembrança de Ti
há um sopro de nuvens estranhas
que revolve as entranhas celestes
e entra ao de leve em dia de pesar
por dentro o horror da fulgorante
chama auroreal. Revela-me ao fim.
Quando chegar a Hora das nuvens
de cinza abrirem, desassossegadas
e céleres, as vãs gavetas da nébula
imemorial, irás pedir-me que entre,
e responderei que sim: que a nossa
vida foi uma breve short story. Fim.

27 Outubro 2006

Poema hermafrodita

Ann Erpino,
The Kiss,
1994


a tua língua quente e húmida
saliva seca na minha garganta

brincamos aos orgasmos, sedentos
de sexo microscopicamente cósmico

perdemo-nos em longos beijos e, pasmos,
como dois asnos na ampla cama de quiasmos

já algo exaustos, quase em marasmo,
bocejamos o nosso amor interrogados:

foi este um sonho de sonos trocados,
ou acordámos mesmo com os sexos errados?

25 Outubro 2006

Poema felino

Dedicado à Gina, ao Jorge, à Cláudia, à aquilária... às feras: Baloo, Bagheera, Pandora, Perséfone, Cassandra, Aristóteles, Astaroth, Lucifera... e a tod@s @s gat@s deste (e do outro) mundo.


Quero ser um gato
e voltar a sentir
interesse por
lugares por
explorar.

Quero ter um olhar astuto,
gélido e fixo; um instinto
felino com que perscrutar
a solidão das almas humanas...

(Sagradas são as minhas patas profanas!)

Quero brincar com o meu corpo
sem ter de dar satisfações
a ninguém; lamber feridas
sem ter ilusões de que existem
curas para doenças indefinidas.

Quero arranhar um tapete intempestivo
em vez de taciturno o aprumar
num gesto (quase) obsessivo-compulsivo.

Quero ser dono do coração do meu dono!

Quero invadir um território
pelo simples prazer de poder
desfazer o material de escritório.

Quero indagar, alertar,
miar sempre nunca amuar;
ronronar e acalmar
os corações a
gentes sem tempo para
amar...

Quero-te, meu querido, dócil
como um servo... ao fim do dia,
sorver os teus desejos inúteis,
embriagar-te com festas fúteis.

21 Outubro 2006

Ghostheart


Neste poema onde solitário me depuseram
As cinzas nos olhos de torpor impregnados,
Há esta figura espectral que cumpre vestir
Nas palavras com signos nus de linguagem.

A primeira vez que li a vã glória da vida
com um sentido de sentinela despojado,
soube que cegara de sonhos o abismado
coração deserto. Venda e fuga: e-vacua.


13 Outubro 2006

O Jogo



Os minutos perdidos a contar os segundos; os segundos que, segundo o mundo, serão sempre meus, desde que não prejudique terceiro; os segundos de atraso em relação ao primeiro; os segundos em que o segundo usurpou o trono do primeiro; o grito do primogénito quando a viu sorrir; os braços de uma árvore no meu tronco a troco de paz; as repetidas chamadas não atendidas das raízes mais familiares; os versos proscritos escritos em folhas douradas; o hálito matinal onde encontrei a sorte disfarçada de azar; a tua coragem a combater o meu medo de viver; as horas enforcadas ao estrangular o tempo; os teus beijos como lâminas que brotam no meu coração; a percepção da minha fortuna neste dia igual aos demais: lúcido, cinzento, azarento.

30 Setembro 2006

REQUIEM (The Wordless Poet)


All greatness comes from loss.




Para o Vasco.*


Agora que a leveza do teu verso endurece
O silêncio ensurdece a folha sem reverso
Oculta a sinfonia inaudita imaculada
Interlúdio perdido na imensidão do nada
Reluzente intervalo longo de mais entre
A nota solta na pauta e a nota de despedida
Que a garra da morte agarra risca e rasga
Em pedaços a carne amarrotada arremessada
Ao mar onde as ondas andam secas de espuma
Nos olhos vazios choram almas lágrimas e pus
Peles derramando sangues num só verbo o dançar
Em sintonia com silentes orquestras fantasmagóricas
Uma melodia continuamente interrompida
Por um descanso eterno requiem
Satisfeito se souber sempre a insatisfação
No lívido pulso a chama da vida é feia
E a realidade não é senão um espelho de teias
Braços com que insectos tecem irresolutas veias
Nas palavras que anoitecem a um canto o poeta
Em lagrimares de canções insalubres e lúgubres quem quer
Descanso eterno por tanto saber
Que há algo no caminho
Que há algum caminho
Que é um caminho
Se nada é inexpugnável nada
Que és inexorável grão d'areia nada
Que serás sempre verso e poeira nada
Em direcção à derradeira morada
Sem saber nada nada para lá
Das feridas nas palavras proscritas
Que os tubarões não nos assustam
Os vastos oceanos sim
São os abismos da tua alma. SILÊNCIO.


Requiem aeternam dona eis Domine, et lux perpetua luceat eis.


*Descansa em paz, meu irmão...

22 Setembro 2006

trans(es)crito


a noite passada...


...disseram-lhe que:


- apesar de ser pouco pontual, recebê-lo-iam sorridentes;
- não entornaria tanto café, se falasse menos com as mãos;
- estava demasiado introspectivo;
- esperança + absinto = the curse of the green fairy;
- a Carlsberg é o melhor veneno do mundo;
- era grande, sem ser grande coisa;
- era simpático, sem ser hipócrita;
- se preocupasse com uma eventual anemia, dada a sua palidez;
- talvez fosse um romântico, quicá um masoquista;
- no que toca à leitura, o seu SMS era um SOS;
- era um optimista distraído, um pessimista confundido;
- a sua namorada era afortunada, não obstante a sua angústia;
- tinha os maxilares salientes mais apetecidos do mundo;
- parecia muito mais velho do que o seu pai;
- sem saber ainda bem porquê, seriam capazes de gostar dele;
- teriam imenso prazer que analisasse um manuscrito;
- era generoso, sem que isso significasse ser boa pessoa;
- ficasse com os cinco cigarros desse maço vazio;
- talvez devesse deixar de escrever;
- até era um fantasma demasiado «humano»;
- parasse de cantarolar a "Obscured", de Celtic Frost;
- já deveria saber esperar sem desesperar;
- acordasse, pois chegara a altura de ir dormir;
- fosse aprender a viver.



A moment of Zen:


18 Setembro 2006

Portraitor



Parido em Setembro,
se bem me lembro:
maníaco da limpeza
a alma cheia de tristeza...


Nave-mãe



Happy Birthzen!


08 Setembro 2006

SMS (Serpent Mobile Service)


Enter the Ghost Lake.
The waters whisper
Of something brooding.
No way out of here.


My Dying Bride, "Into the Lake of Ghosts"




There is a mystic nothingness in the lake outside my bleak window, an underlying light which perpetuates silence and devotion, a supernatural force that impels me to write poetry whenever the waters lay still. In this lake lives the author of my songs, the serpent to whom I'm deeply indebted for enlightenment on life. She is the playwriter, I am her play(thing)er... She see(k)s me blind(ly), a mere character, forging a way to play The Scornful and The Passionate once more. Dressed in snow, She comes over me gentle as the rain, softly as a silent (g)host. I gaze at Her sight, astonished, numb, as a prey shocked with fear. I dare not to interfere. In her presence, I tend to digress, like a shadow possessed, running round in circles to reach Her. There is no doubt about it: love will always lead towards perfection. And I have learned from the best.
The ones I would have enjoyed having a cup of coffee with are all dead: Baudelaire, Rimbaud, Lisboa, Pessoa, Stein, Dickinson, Eliot, Poe, Whitman... they are all gone. Every now and then, while dancing in the shadows of my soulitary den, I watch them get together for some brainstorming sessions. Sometimes, I manage to enter the game and, as they stand quietly enthralled, offer them images of sadness. Surprisingly, they seem pleased. Not a few times, they revolve the waters, and I am invited to taste the coldness of their domain. I hold my breath thoroughfully, listening to the magical sounds of melancholy. If there are poems I can easily comprehend, those are the ones of my brothers: the desolake, the chosen race. I follow their trace, disturbed by dreams I have never dreamt, drinking from the fountain of bliss. They present me a cup of wine, a truly exquisite wine: the same wine which brings me closer to God. Never-the-less, when I approach Her my cup appears to be empty. It is useless: I reason not the need! Will they ever fill me again? As I embrace the dawn of a dying day, the only thing that is left is Her sweet caress, tenderly whispering: "The wheel of fortune is endless... Never lose your faith in me!" O, my Night Mére, my endless nightmare... May your ineffable smile be my guiding light! I am desolake, dear Serpent, the poisonous eye at your service.

02 Setembro 2006

Epigraph



It comes softly
in the midst of the night:
a blissful bite,
turning darkness
into light...

31 Agosto 2006

(premonição)

29 Agosto 2006

Em Agosto, o desgosto...

Claude Monet, Impression: Sunrise, 1873.

...apossa-se de mim como se fosse
uma poça no lamaçal do remorso;
deixa-me com um olhar seco e tosco
a melancolia desta paisagem turva;
e com o torso entorpecido, curvo
perante o agostado nevoeiro matinal.

25 Agosto 2006

POEMAR (written in waters)



(to see) o mar numa caixa

abri a caixa
e tossi qualquer coisa
com sabor a mar. pelo ar,
ressonam ecos de velhas imagens
sem cor ou cheiro; como se os dedos
se lembrassem subitamente de acordar
um poema antigo... sobras e restos,
sombras de versos mal paridos.

desato a correr o frágil 'aço da memória
e descubro
a janela por onde via:

o rugido da espuma a esbater na falésia,
o grito de uma garça a esvair-se em graça,
a lassidão de um tubarão sem presas,
o esbracejar de um peixe fora d'água...

(quem diria que um sopro de maresia
e uma lata de conservas sem sal
pudessem guardar fulgurante o eterno
pôr-do-sol no céu do meu coração!)

fecho a caixa
e ouço o poema resmungar:
«grande má onda, meu
coleccionador sem conchas!
pá, lavra com palavras
o sonho,
o sabor a mar
que nunca sentiste.»

28 Julho 2006

Latrinas



Só a imaginação transforma. Só a imaginação transtorna. É imaginação o livre exercício do espírito que servindo-se de um ou mais aspectos do «real» passa lenta ou rapidamente ao extremo limite deste para alcançar, pouco importa em que margens, o objecto real de um irreal conquistado no espírito. Acelerar este processo levando-o a um ponto em que se torne impossível falar de real e irreal (negação da negação anterior), produzir um objecto onde tudo, simultaneamente, tem as propriedades da verdade e do erro, da razão e da loucura, do que foi encontrado e do que foi perdido, é transformar a realidade depois de a haver transtornado.

Mário Cesariny, A Intervenção Surrealista




Latrina #1: O Covil.


Num prédio assombrado pelos fantasmas do salazarismo, vive uma sombra atormentada pelas luzes do modernismo. Pese embora o seu manifesto interesse por diversos ismos de vanguarda (dos quais se destacam, por exemplo, o canibalismo cerebral e o antropomorfismo vegetal), a sombra mantém-se fiel à prática de alguns ritos tidos nos tempos modernos como antiquados e/ou primitivos. De entre eles, sobressai um deveras peculiar, que passo a relatar.
Noite após noite, num quarto invulgarmente comum, a sombra desafia o seu reflexo no espelho. A competição do costume. O relógio aponta: uma (sombra) e um quarto (vazio). Com extrema devoção, a sombra agacha-se e rasga, nas já gastas peles do vidro rachado, uma ou outra fissura que lhe recorde qualquer coisa pura: sobras de um presente passado. Artigos definidos, pronomes indefinidos... tudo se conjuga harmoniosamente num verbo que se quer regular: matar... a solidão. A noite só é escura para os cegos – e, no reino dos cegos, quem tem olho me(n)diga que o tem (principalmente, se o olho for venenoso!). A noite é branca, reluzente, como um lençol divino que legitima a visão das almas apanhadas no clima da insónia. Na quietude da cacofonia citadina, a sombra isola-se, ouve a serpente segredar-lhe uma canção ao tímpano da memória e excita-se, qual predadora faminta, pronta a devorar uma nova presa de papel, desesperada. O reflexo no espelho grita, riscado como o disco que se ouve sofregamente. Como se de um combate pela sobrevivência se tratasse, a sombra descontrola-se e ataca impiedosamente o inimigo por detrás do espelho; depois, entre lamúrias, lamentos e inenarráveis tormentos, é ver a sombra recolher, desgostosa, os restos do seu reflexo desfeito. Há duelos que, por mais que se repitam, sabem sempre a passado, a arrependimento. O presente chega num embrulho amargo com um laço disfarçado de consolação: um copo de vinho barato, um cigarro (o sétimo) imperfeito e um perfume de incenso que cheira ora a ópio, ora a esperança. Três troféus, três sentenças que se consomem em três minutos. O quarto (di)minuto uma vez mais afogado no vazio. De súbito, o silêncio é rasgado pelo gemido de um telefone: «Então, lindo, encontramo-nos no sítio do costume para mais uma conversa mergulhada em metonímias?»
E é assim que, como se emergindo de um sono sepulcral, desperto – sobressaltado, suado, aterrorizado. Abro a janela e tomo um duche de chuva. Eu não sou eu: sou algo que restou de um sonho demasiado real. Cumprimento o espelho: a sombra derrotou o seu reflexo. O triunfo do costume. O relógio aponta: duas (sombras) e um quarto (de lua crescente). Ainda algo entorpecido, procuro o ponteiro da noite luminosa. Sinto-me (mais ou menos) vivo – mas isso não é essencial. Encontro, algures, um fantasma, que me pergunta: «Então, preparado para o recital de amanhã? Quem escreve sobre sombras, convém espelhar um ar radiante!» Respondo-lhe, entredentes: «Acho que sim.» Sorrio. Lagrimo, à medida que a nossa distância aumenta: «Queria tanto que conseguisses ouvir... a minha voz... muda.» Tropeço. Caio. Levanto-me. S@turnamente embriagado, dispo-me no quarto vazio de lua crescente, avanço até à janela – e voo. This could be my last regress. A realidade não é senão uma impressão, uma cópia de algo que talvez tenha sido original.





Ainda são alguns os degraus que me arrastam até ao Sanitário, mas os meus adjectivos, esses já lá estão dentro com certeza, quais vocábulos indomáveis, arrebatados, movidos por uma incompreensível urgência de adjectivar as noites que deveriam ser, por natureza, inqualificáveis.
Não obstante a presença das minhas queridas colher de chá e Eye of Horus – na galhofa, na maledicência e na ternura, companheiras insubstituíveis –, absinto-me sempre sozinho neste bar absurdo; sorumbático, submerso numa música inaudível.
Cada vez mais me convenço que este bar é o espaço ideal para quem gosta de expurgar a alma enquanto conspurca o corpo com uma purga qualquer. Aqui, quem quiser gritar, refilar, rosnar, uivar, morder co(r)pos, dançar, cuspir sangue, dançar, cambalear, dançar ou seduzir demónios com shots de euro e meio... é sempre livre de o fazer; ele até há quem esteja a um canto a conversar!!!
Contudo, nem só de javardice ou de rituais de acasalamento atípicos vive o Sanitário. É possível encontrar, no mesmo ambiente (em inglês, envirusment), outras almas, mais delicadas e românticas, que se refugiam a um canto, olhar fixo em tudo sem se deter em nada, uma mão no bolso, a outra consumida pelo cigarro e uma terceira, vinda sabe-se lá de onde, que segura a cerveja – enquanto aguardam por que chegue alguém (uma alma gémea?) que lhes diga que sim, que são muito infelizes e que isto é tudo uma merda. Não sei se estão a ver a espécie... é aquela que, de snooze em snooze, põe o despertador a lamuriar-se: "O, the pain... the pain of it all!" Normalmente acabam a noite num crescendo de embriaguez, batendo o pezinho ao som das músicas mais imbecis.
Neste espaço, a variedade encontra-se; as distâncias encurtam-se; e até o olhar mais lânguido e sensual adormece exausto num copo partido. Às seis da manhã, há ainda quem queira dançar um David Bowie já cansado, à espera de algo melhor. O pano cai ao som de um "It's such a perfect day" em que já ninguém acredita. Depois... depois varrem-nos da lama. Lá fora, nevoeiro.
Prossigo a minha caminhada, regresso à minha distância. Aqui só há o nada, a tépida lembrança de algo que quase resultou. Pudesse eu sentir-me verdadeiramente parte da natureza – um girassol, um raio de sol; um dilúvio, intemporal, universal... uma lágrima – e o meu sorriso seria espontâneo. Mas sou só mais uma réplica de vida fingida, um grão de areia longe do mar, pedaço de poema-sal... picado pela beleza na poeira.
Absinto-me sempre taciturno nesta distância absurda.


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Quem frequenta com assiduidade a Via Latrina saberá, pelo menos, uma de duas coisas: a primeira, é que é claramente pouco asseado; a segunda, é que ali se realizam, a meio da semana, não uma, mas duas «noites negras» em simultâneo. A mais concorrida, que decorre no salão principal, tem um sabor africano, e nela é possível ser-se pisado, abalrroado e apalpado de uma só vez, tal a quantidade de casais que teimam em dançar agarradinhos uns aos outros. A outra, relegada para um pequeno casulo no andar de cima, é onde os vampiros da cidade de Coimbra se reúnem em convénio, nas já celebérrimas dark nights. Como calcularão, é para lá que caminho.
À medida que subo os lamacentos e vomitados degraus da Via, vou aquecendo o meu bloquinho infernal para mais uma noite de paródia bem mórbida. Sou recebido com uma modinha de Samael. Nada mau; é sempre reconfortante saber que há mais serpentes in the house! Depois de cumprimentar a caríssima Eye of Horus – companheira destas e doutras deambulações –, coloco-me estrategicamente a um canto (para os interessados, «o método da aranha»); o canto é o refúgio ideal para quem não sabe esconder-se. Enquanto bebo uma imitação de cerveja e fumo um suave cigarro, passeio o olhar pela fauna vampiresca. Ele há de todos os géneros e para todos os gostos: gótic@s, metaleir@s, matrixian@s, provincian@os... um sem-número de criaturas que competem entre si para ver quem é a mais mórbida, a mais palidazinha, a mais imbecilzinha... Uma vista menos desarmada poderá ainda aperceber-se da tímida presença de um elemento estranho à comunidade; trata-se de um vizinho do andar de baixo: provavelmente perdido, quiçá em busca de «sangue novo» - certamente embriagado. Perante a comicidade de tal cenário, desato a rabiscar no bloquinho. «Que belo cabedal tem aquele!», diz alguém que por mim passa. «É falso», lanço eu. «Como é que sabes? Parece-me muito verdadeiro!» Depois de a despachar com um «nem tudo o que reluz é ouro...», apercebo-me da presença, no canto oposto ao meu, da moça que gosta muito de My Dying Bride, e, pela cumplicidade do olhar, adivinho que quer conversa. Aí vem ela:

« - Desculpa lá, há já algum tempo que estou para te perguntar uma coisa...»
« - Se te souber responder...»
« - Por que é que estás sempre aqui a um canto a escrever?»
« - Sei lá... en-canto nocturno?»
« - Vá lá, não sejas parvo! E escreves sempre nesses bloquinhos coloridos?»
« - Sim, sempre que posso. É uma das minhas caprichosas idiossincrasias.»
« - Idio... quê?»
« - Hum... idiotices.»
« - Então e escreves sobre o quê?»
« - Sobre (o) nada.»
« - Sobre nada?»
« - Queres melhor temática do que essa! É certo que há quem me acuse de ser demasiado egocêntrico, mas isso é gente que não sabe o que é ter o umbigo demasiado sujo...»
« - Não será antes cotão?»
« - Impossível... tenho o umbigo virado para fora, e não para dentro.»
« - E porquê essas meias dos Simpsons?»
« - Porque calço o 44 – e o meu sentido de humor começa logo nos pés!»
« - És engraçado!! Olha, está a passar Fields... Acho que vou abanar o esqueleto! Não vens?»
« - Não, estou pouco embriagado. Para além disso, já não como há alguns dias.»
« - Mas... não gostas de Fields?»
« - Claro que gosto!!! Mas prefiro estar a um canto. Talvez passem o "The Watchman"...»
« - Faz como quiseres. Boa sorte para a tua escrita! Tchau!»
« - Adeus... e obrigado pelo poema.»




Latrina #3: SugaDores.


A morte inspira-nos; a vida, transpira-nos. Somos seres sedentos de sangue, de suor, de lágrimas. Hospedamo-nos em qualquer corpo que apresente uma ferida ainda aberta. Parasitamos, seduzimos, esquartejamos... sugamos energias alheias, saciamos a nossa dor. É uma questão de sobrevivência. A insatisfação e a sede, o medo e o desespero – movem-nos, comovem-nos, bailam estóicos em nossas lâminas excitadas. Somos sugadores impiedosos, implacáveis - mas sensíveis. Tudo o que queremos é a glorificação do Amor. A beleza, para nós, não surge reflectida no espelho: ela é o espelho. O pulso com que manifestamos a dor de viver lembra tanto o do assassino como o do poeta: simultaneamente lúcido e insano, cego e meticuloso. Os delírios que dele emanam inundam mundos, devoram sonhos, alimentam almas... disciplinam a desordem da ordem universal. A pena com que tingimos a realidade tem a cor da esperança, e qualquer quadro disfórico por ela retocado, subitamente reluz, tal a profusão eufórica da nossa visão. Somos poetas irreconhecíveis por detrás da máscara de parasitas; destruímos com o único propósito de renascer purificados, e o nosso brado, por si só, torna-nos bardos compositores de vida. É por entre os versos que legitimamos a nossa existência enquanto organismos aut(d)ores. Uns chamam-lhe crime; outros, mais avisados, libertação. Se é por esta razão, se é por aquela – isso não é essencial: só a poesia nos pode oferecer a infinita possibilidade de redenção. E esta ilação não é de agora... remonta aos tempos bélicos da palavra, em que a poesia era uma arma, e significava poder. É urgente recuperar os SugaDores do passado – arqueiros românticos, infantaria clássica, sentinelas modernistas, artilharia surrealista... toda uma galeria bélica ávida de combates – e com eles aprender a lutar, de modo a chacinar esta imitação de vida que alimenta a nossa fome desmesurada de viver. Somos seres sedentos de sangue, suor e lágrimas. Somos a dinastia da criação implacável... e resistiremos até à última lâmina! A morte é uma preciosa fonte de inspiração, quando é vida aquilo que se quer escrever. E esta, sim, é a dor essencial.


A moment of Zen:



A ouvir Fields of The Nephilim, Revelations.